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Até Já

Descalço os sapatos, não quero sujar a casa, espatinhá-la e ter de a ver limpar mais cedo do que o previsto. Ela não tem tempo para isso. Entro devagar para que não a acorde, ela já dorme. Coloco a mochila de uma forma rotineira na mesa da cozinha de forma a que possa retirar tudo o que está lá dentro, só para que amanhã, ou daqui a umas horas coloque tudo lá dentro novamente. Sento-me monotonamente na cadeira da varanda, sabe bem, sentir a brisa a passar pelo cabelo molhado de um dia inteiro de trabalho. Levanto-me, olho ao meu redor e vejo o quão abençoado sou pela casa que tenho. *Bip* Odiava aquele som, ultimamente significava sempre que estava atrasado para fazer algo, que não sabia o que era, e que não queria bem fazer. *Bip* insiste. Atendo. Levo as mãos à cara por momentos, para me confrontar com o momento de que não vou estar deitado naquela cama o suficiente para ela o sentir, para que ela sequer se lembre que estive ali. Volto à cozinha, Tudo o que tirei da mochila de certa forma volta para lá. Cansado e a arrastar os meus pés, levo-me até à casa de banho. A água quente do duche sempre me ajudou a relaxar e a ficar suficientemente calmo perante a inconstante do que posso, quero, ou tenho tempo para fazer. Volto a vestir a farda que ainda à pouco tinha vestida. Abro devagar a porta do quarto, não a quero acordar, mas quero vê-la. Sento-me. - Cheguei amor. Ouço um leve murmúrio, sei que ela sabe que eu estou ali, e que de manhã vai procurar e já não estou. Suspiro, agarro na mochila, abro novamente a porta, fecho, calço os sapatos. - Até já. - com mais tempo, penso eu para mim, enquanto soluço por dentro lágrimas de amargura por não poder sentir aquele calor, por não poder sentir que estava em casa. - Até já.

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