O medo está sempre presente. Quer queiramos ou não é impossível não viver com ele.
Podemos tentar enganá-lo, podemos tentar dizer-lhe “desta vez não”, mas, ele alimenta-se e come connosco à nossa mesa, à espera de um momento, daquele momento que sabemos que é sempre o menos oportuno e, voilá, ali está ele. Primeiro entranha-se apenas na tua cabeça dizendo que não és capaz, que não vais conseguir, depois passa por todas as entranhas do teu corpo, tu sentes ele a deslizar sobre ti como simples gotas de suor, tu sentes que alimentaste aquele “animal”, tu sabes que o alimentaste e sabes que vais ter de viver com ele.
Tomo um banho, retiro todas aquelas gotas de suor que escorregaram sobre o meu corpo e que cheiravam a desconforto, mentira e desilusão. Eu alimentei aquele medo, criei-o mas vou prendê-lo. Tenho a minha pele a cheirar a aroma suave de jasmim, como adoro este gel de banho, criei um pacto com aquele pequeno momento de paz em que lavei todas aquelas gotas de medo do meu corpo, criei o pacto de conseguir, de apagar tudo isso novamente.
Na verdade criei esse pacto para poder sair dali e ter um pouco de paz, eu sei que o medo está lá, sempre vai estar. Nós acabamos sempre por alimentar todos os dias os nossos medos e frustrações, eu apenas decidi que a partir de hoje o medo iria passar alguma fome, e eu ia alimentar mais a minha vontade e a minha esperança.
Se ele um dia fugir e voltar a percorrer o meu corpo e sentidos, eu faço mais um pacto.
O medo vai estar sempre lá, mas eu não me prendo a ele. Eu prendo ele.
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